4 de mai. de 2010

Imaginário revelativo absoluto eterno esquecido relembrado fictício realizado

Ele: - Eu já tive medo do escuro.
Ela: - Eu não sei andar de bicicleta.
Ele: - Tem vezes que quando já deitei e esqueci de escovar os dentes, eu durmo sem escovar.
Ela: - Matei o banho domingo passado.
Ele: - Cheirei o travesseiro no dia seguinte da tua primeira vida aqui.
Ela: - Cheirei minhas mão aquele domingo inteiro.
Ele: - Te comprei um presente, mas fiquei com vergonha de dar.
Ela: - Te escrevi uma carta cheia de frases de impacto.
Ele: - Elaboro coisas bonitas pra te dizer, mas às vezes dá um branco e falo só besteira.
Ela: - Chorei de saudade naquela despedida, mas fingi que foi o filme que passou no ônibus.
Ele: - Senti tua falta e doeu.
Ela: - Sonhei que acordava do teu lado, te liguei, mas desliguei antes de atender.
ad infinitum.

25 de abr. de 2010

do moço de chapeu e da moça que não podia prender o cabelo

o pensamento andava distante e assim tropeçava em pedras que pareciam tão evidentes.
a lua não aparecia mais em sua janela. dias cinzas e nuvens carregadas.
esquecia a chaleira de água fervendo no fogo por várias vezes.
a cada domingo uma nova gripe pra não levantar.
regava sementes de flores que não sabia o nome.
esquecia que o outono as impedia de nascer.
inventava histórias que percebia que eram só suas.
saía de chapeu porque não gostava da barba molhada.
se enrolava no cachecol com medo do frio.
lembrava de ternuras e tricoteava juntando os pedaços.
dos dias já haviam passado mais de 60, mas ele não acabara o filme.
queria pintar de vinho a colcha branca e pintar de branco o seu coração.
sempre ouvia que deveria ser cuidadoso e não chegar muito perto com a sua taça e nem derramar todo seu carinho.
"fica bem" era sempre repetido.
leve.

22 de abr. de 2010

sobre o pacu que viveu no mar

menino que não tinha nome ganhou um livro de uma sereia, quis conhecer o mar, foi ver o circo e foi batizado com nome de peixe de água doce. menino pacu sabia duas histórias, mas quando contava uma, esquecia outra. menino pacu não era feliz, mas contava histórias. um dia seu irmão voou e fingiu de morto. todos riram pela primeira vez. seu irmão tonho tinha 20 anos. conheceu o amor. a lua cheia acabava com a trégua da faixa preta. menino pacu conhecia a ternura. a ternura que era maior que o amor. menino pacu queria conhecer o mar. menino usava chapeu e a faixa preta enquanto caminhava entre o canavial. ele lembrava da sua história, mas esquecera a da sereia. a sua história estava por acabar e então voltara a lembrar a da sereia. o trovão que não vinha do ceu estalou.

"um dia a sereia veio buscar o menino pra viver mais ela. ele gostô. ela virô o menino em peixe e levô ele pra viver debaixo do mar. no mar ninguém morria e tinha lugar pra todo mundo. no mar eles vivam tão feliz, mas tão feliz que não conseguia mais parar de dar risada."

11 de abr. de 2010

do gosto da boca doce e da dúvida

ele não cansava de seu novo encosto em formato de ombro. trocavam carícias, abraços, palavras bonitas e ela sempre dizia que ele era "doce, tão doce". gostava de estar ali. seu cabelo era sempre despenteado por todas as carícias que ela fazia. ele não queria levantar. ela repetia que ele era "doce, tão doce". com muita curiosidade ele a fitou nos olhos e perguntou:
-que doce, moça bonita?
ela não entendeu a pergunta.
-tu me prova e sente meu gosto. eu não canso da tua boca, mas me diz, que sabor tenho eu?
ela não soube responder. eram meras frases repetidas.
ele sabia que ela era um doce de amendoim daqueles que ela detestava, mas pra ele não existia melhor.

7 de abr. de 2010

trapaças, habilidades e sortes que não fariam diferença

"Provavelmente o amor é um jogo; nos jogos é preciso respeitar as regras. Em todo o caso, é alguma coisa muito delicada: não o manuseie, como eu o tenho manuseado, porque o estraagará irremediavelmente."
Adolfo Bioy Casares

Pensava que sua trinca de damas seriam suficientes. Percebia o blefe com pequenos sinais: o olho esquerdo tremia vagarosamente enquanto a mão oposta suava. O amor não poderia ser poker, já que os blefes nunca são percebidos. As cartas na manga, no amor, eram inúteis.

Fazia apostas nos pares, impares, vermelhos e negros. A roleta girava e o 0 dava o prêmio pra banca. O amor não seria a roleta, já que nesta quanto mais números apostamos, maiores as chances de êxito, mas com prêmios menores. No amor só se podem colocar todas as fichas em apenas um número esperando a sorte grande. Ao tentar apostar metade das fichas ou em vários números a banca sempre vence.

A primeira carta era um três, depois veio um nove. Doze. Seguiu apostando. Seguido por um sete. Dezenove não seria uma pontuação ruim, mas poderia esperar o dois. Exitou. Blackjack não é o jogo do amor. No amor apostamos tudo sempre, independente de estar quase no vinteeum.

Tinha uma vantagem de três bolas. Uma nova tacada e a bola oito, à beira da caçapa, cairia. Com cálculos de distâncias, força, velocidade do vento, um passar de giz na ponta do taco; foi dada a tacada final e a bola oito seguia imóvel. O desfecho do jogo nunca se soube. O bilhar jamais se assemelharia ao amor. Anos de treinamento na arte de amar e o jovem senhor me disse em certa feita que não sabia nada sobre essa arte. Nunca conheci um amante habilidoso, diferentemente dos jogadores de bilhar.

Depois de tirar dezessete vezes o mesmo número, desistiu de girar os dados. Nunca souberam me dizer se o dado era viciado ou se aquele era seu dia de sorte. O amor não é um jogo de dados. Nunca conheci amor viciado e nunca pude contar com a sorte no tal jogo que chamam de amor.

Nos últimos dezessete anos apostou em apenas dois cavalos, dois pampas muito semelhantes. Depois de catorze anos de corridas a sua primeira opção de apostas morre e ele não hesita em seguir no seu herdeiro. A mulher pede que deixe os cavalos de lado. Perdeu a formatura de seu filho porque as chances do seu pampa ganharem eram grandes. Nunca ganhou um tostão, mas contava as horas pela próxima largada. Considerando lucros e dividendos o amor não existe. Na hora da escolha, o olho nunca se engana, não analisa o passado, não pensa na resistência e no porte físico, mas aposta todas as forças no cavalo de sempre. Nunca ouvi caso de enriquecimento em corridas de cavalos. Nunca ouvi história de existir um ex-apostador de corridas de cavalos. Penso que o coração se assemelha ao jockey club. As apostas são incondicionais e irracionais. Não existem ex-amantes. Pode passar a pessoa amada, mas depositamos toda a confiança no próximonovoamor. Anos de desilusões e o coração palpita novamente quando surge um novo "cavalo" na pista cinco.

14 de mar. de 2010

segredo de seus olhos

e a vida girava em linhas tortas, como dizia a canção.
mentia pra mim mesmo que era apenas a cabeça que doía.
disse que andava entediado: mentiras premeditas.
não levantava da cama e sonhava todo o tempo.
andava sempre com fome.
queria ter uma floreira pela casa.
precisava de algo para aguar.
se perdia entre paradas de ônibus e falava o que não devia.
começava filmes e leituras que deixava para trás.
sempre gostara de diversões solitárias,
mas não gostava mais de se sentir só.

1 de mar. de 2010

da volta de silêncios pelo sol e pela lua

desisti do literato,
labuta mais sem cabimento.
com todo esse meu sorriso
não quero a dor como fermento.

versinhos mais desnecessários
aproveito olhares indefinidos
guardo a poesia nos armários
para épocas de frio.

desperdício de metáforas?
as tiro do papel.
não preciso de palavras
tenho visto a lua no céu.

sofrimento demais se chamava amor.
então de que me servia,
se sempre eu o aliava a dor?
ganhei apertos a reviria.

perdi a aposta da graminha.
não fiz meu pedido.
mas já tenho toda a ternurinha
que há tempos tenho desejado.

19 de fev. de 2010

metalinguística

para escrever um poema,
pensava sobre o maldito tema
que o tornaria uma obra ímpar.

sempre tentei falar de amor
que nunca consegui não aliar a dor,
mas, dessa forma, esse era sempre tratado.

outrora falava de mim,
das minhas frustrações em encontrar um fim
acabei me cansando.

banalidades já foram ditas,
por vezes até escritas,
mas sempre me impressionaram.

busquei inspiração no bandeira,
de minha autoria só saiu asneira
e eu seguia no meu impasse.

recorri aos poetas estrangeiros,
não consegui nem alcançar seus cheiros
quem dirá poetizar.

acabei me recostando no travesseiro
o sono me alcançou ligeiro
e a pena ficou de lado.

8 de fev. de 2010

em dias de chuva e sol

e não é que com o final da tarde veio o sol? uma pontinha de sol.
andava em um tempo de não entender metafóras sendo que era o que mais procurava.
andava nervoso, um pouco ansioso. pensava mil vezes antes de escrever algo e mesmo assim não conseguia passar o que sentia.
a chuva veio dessa lado, do outro também.
o calor foi embora, mas o que ele buscava era o calor.
o calor do sol andava demasiado, mas certa noite sentiu o calor da lua.
procurava fios de cabelos pelo lençol branco.
mas de que me adianta o sol bater na minha janela e formar um arco-íris se a lua não me aparece pela noite?
hoje entendi o que o tom chamava de "inútil paisagem."

7 de fev. de 2010

ele se impediu de escrever o que tinha ganas, como dizem os argentinos.

sobre tropicalias e dias ensolarados

era um tempo de mudanças, ele sabia.
viu que não eram frios os quarentaetantos graus santamarienses.
tinha vergonha de suas costas molhadas e de sua estatura.
vezenquando tinha um pouco de orgulho de algumas coisas.
ele olhou para o prédio moderninho enquanto caminhava pela rua.
na primeira noite só deixou a timidez de lado tardiamente.
na posterior ele a esqueceu em casa.
passava bons momentos entre amigos. andava precisando.
ausentou-se na busca de um belo sorriso e olhos de cores que ele não conseguia definir.
tentava manter a postura. muitas vezes não conseguia.
comprou uma garrafa de água. fórmula do auto-controle em meio a noitadas.
fez um dia bonito e ele pode ver o sol se levantando.
disse que gostava de dias ensolarados. ela riu.
ele matutava sobre entregas e possibilidades.

4 de fev. de 2010

fragmentos de sapos viciados em cafés

meu passado me condenava,
entre mistérios e esperanças se escondia.
meu futuro é duvidoso,
não tenho grana, mas tenho dor.
desistiu da terapia.
não gostava das boletas e andava cansado de falar de si mesmo.
aparentava ser um sapo.
sabia que escondia por debaixo do seu manto a si mesmo.
numa esquina qualquer encontrou uma máquina de café.
duplo e sem açúcar.
não gostava de açúcar, precisava de um equilíbrio entre seu grude renegado e o café amargo.
pensou melhor e resolveu fazer um novo pedido
apalpou os bolsos mas sua última moeda havia caido no bueiro.
ele deu de ombros e se foi.