23 de ago de 2010

Sobre o alvo pendurado no seu peito aberto

Sentira seu peito apunhalado mais uma vez.
O sangue escorrera em um filete interminável, uma hemorragia lenta e eterna.
Fizera grande esforço para impedir suas pálpebras se fecharem.
Sentira as pernas amolecerem e desistira de tentar levantar os braços para arrancar a flecha que o ferira.
Da sua cabeça eram arrancados cabelos com apenas um leve sopro de brisa.
Sentira seu peito apunhalado mais uma vez.
Esquecera automaticamente se havia feito qualquer movimento que demonstrasse não querer se ferir.
Não quisera impedir.
Seu sexo adormecera juntamente com sua força para proferir palavras.
O acaso aplicara a ele mais uma armadilha fatal.
Ele desmaiara em um recanto que jamais teve ao seu alcance com um sorriso que demostrava o ápice do seu encontro consigo mesmo, o auge de sua dor e uma certeza que nunca tivera anteriormente.

11 de ago de 2010

Sobre música de tom

Era ritmada em bossa nova. Ele sofria de uma dor incontrolável. Dor como uma enxaqueca incurável. Não ligava. Ela carregava uma dor no seu olhar grande e profundo. Ele ansiava por dividir e aliviar seu pesar. Era impossível. Dissimulava por não saber evitar. Buscava respostas que não encontrava, por mais que insistissem em saltar aos olhos. Ele não sabia se poderia acreditar. Coloria seus dias de uma forma doce e ele não sabia mais o que esperar. Deprimia-se ao chegar da madrugada e recordava de noites regadas por cafés e cigarros excessivos. Tais como palavras bonitas e empatias. Cafés sem açúcar e olhos doces. Deixava tarefas de lado por não conseguir se concentrar. A via em suas leituras de forma tão evidente e faltava coragem para dividir. Imaginava onde estaria e sonhava com lençois soltos e desarrumados pela cama grande. Imaginava sentimentos e apegos que poderiam não existir. Procurava doses de cores muitas vezes por dia. Entregava-se de uma forma que pensara não ser mais possível e sorria bobo com tudo. Dividia dores que jamais havia conseguido com outro alguém. Dores profundas no seu âmago que não evitava. Dividia de forma clara sem precisar falar literalmente. Sentia empatia. Dizia dissimular, mas se jogava de forma tão evidente dando de ombros para sua impotência. Repetia frases já escritas só pra ver se compartilhavam os sentidos. Ela o repetia e ele se via de cabeçaparabaixo.

9 de ago de 2010

De cambalhotas que não esperava virar

Novamente se deparou consigo mesmo vendo o mundo de cabeça para baixo. Fumava compulsivamente e sorria amarelo como quem tenta disfarçar sua dor com bom humor. Não agia naturalmente e media todas as palavras a serem ditas. Encontrava velhos medos que havia escondido em lugares quase inacessíveis.

Aventurava-se em sua tentativa de ter a atenção para si e quando esta era dada não sabia o que fazer. Queria tocar sua mão suada e ver seus grandes olhos escuros e redondos fechados. Queria sentir seu corpo branco e distante para ela, queria a ver entregue em seu colo e apego, mas sabia ser impossível. Lembrava da canção que dizia “me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração” e sentia lâminas cortando partes que tentava impedir de serem expostas. Ele a olhava agindo de forma tão natural e espontânea que se encantava ainda mais pela sua facilidade de ser terna sem usar palavras. Não a fitava nos olhos, pois sentia pavor de sua olhada grande e profunda que para ela parecia tão fácil de dirigir quando convinha.

Dava tiros tentando impressionar e se mostrava disposto a todas as atrações. Ria dos brinquedos medíocres disfarçando a sua própria insegurança e ansiedade. Trocavam frases curtas e ele não sabia como agir quando ela sentava do seu lado em meio a grades e cintos de segurança. Admirava quando ela olhava nos seus olhos tão profundamente e dizia qualquer frase banal. Deparava-se observando ela girar em meio a luzes, músicas desagradáveis, pessoas desconhecidas e nos seus pensamentos e desejos. Imaginava trocas de olhares e ansiava por sentir seu cheiro e seu calor.

Via o mundo ao contrário pela janela do Kamikaze. Sentia a sensação de ter os órgãos internos espalhados pelo corpo em lugares que não eram devidos. Em meio a tonturas, enjôos, adrenalinas, cocas-colas e brinquedos repetidos, sentiu pequenos pulsares no fundo de seu peito como há algum tempo deixara de sentir. O parque de diversões reanimava seu coração perdido.