3 de dez de 2010

Picnic sentando em banco colorido

O que eu gosto do teu corpo é o sexo
O que gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.

Julio Cortázar

Com a mão espalhava a erva pela cunha. Numa tentativa frustrada de disfarçar a timidez, falava coisas sem sentido e não sabia como se portar. Cuidava-a com o canto do olho por temer fitá-la diretamente. Discutiam literatura e exercitavam seus narcisos interiores. Ela levara um camaféu para o picnic, mas ele chegara de mãos abanando. Temia perder-se entre divagações e palavras trocadas querendo encontrar-se em seus braços. Uma borboleta em meio aos leões e o seu francês bonito. As pilhas de livros mostravam suas leituras e o restante da estante empoeirava-se. Disfarçava o querer-lhe com piadinhas intelectuais. As promessas se enrolavam em grandes bolas e o sol insistia por transformar em água. Ele ansiava por mais um dia chuvoso em que ventasse e a neve resistisse por mais tempo até se consolidar.