27 de nov de 2009

sobre cartas e aulas de estatistica

Ele olhava curiosamente como ela reescrevia todas aquelas folhas, tantas linhas, tantas palavras. Será que diriam algo pra alguém? Ele sabia que ela gostava de cartas. Gostava de receber e escrever cartas. Todos os dias ela olhava a caixa do correio pra ver se novas chegavam. Ele só achava engraçado. Ele não gosta muito de cartas. Sabe como é, mania do eletrônico, mania de olhar nos olhos, por mais que ele não consiga fitar por muito tempo. Aquela aula passava, ele tentava se concentrar, mas tentava ainda mais imaginar tudo que havia escrito. Claro que o narcisismo costumeiro estava presente. Ele gosta de ser visto. Era bonita a forma como ela escrevia, ele gosta daquela cara de concentração, ainda prefere o sorriso, mas gosta. Ela sempre morde acaba mordiscando o lábio inferior quando escreve, ela sempre coloca as folhas a sua esquerda e se curva sobre elas, ela sempre passa a mão sobre as folhas após escrever um pouco, como se dissesse “é isso mesmo que devo estar escrevendo?” Nunca espera a resposta e segue manchando de caneta novas linhas. E ele sempre se lembra que seus envelopes sempre diziam todo o conteúdo das cartas. A mensagem já poderia ser avaliada pelo envelope, pelas cores do envelope e pelas cores da caneta que escreveram o envelope. Engraçado também era notar o quanto da carta estava riscada. Já dizia tudo. Ela gosta de cartas. E ele acha isso bonito.

22 de nov de 2009

na noite já escura
um movimento invisível é percebido
como um estardalhaço mudo.
era azar.
tu dizia que era sorte.
"Quem diria que amar ia dar nisso?"

21 de nov de 2009

poeta andarilho

no papel é descompassado
seus passos dão o ritmo
suas pisadas dão a rima
sua pena é urbana
sua pena não é de ganso
sua pena é de morte

20 de nov de 2009

volúpia

e tu usava aquele vestido colorido.
pouco importava.
tu dizia que eu não gostava.
pura implicância.
tu gosta de implicar,
eu acho engraçado.
as roupas logo se espalharam,
a cama fazia barulho.
tu reclamava.
minha conversa póstuma,
agora eu abreviava.
teu sono sono póstumo,
agora falava.
o riso e a diferença.
as flores no meu corpo.
a pressa desgostosa.
as carícias se tornam apertos.
eu suava.
tu ria.
e logo tudo se tornava líquido.
eu não me importava.
volúpia.
queria a flor, a pena barulhenta e o cachorro cor-de-rosa.
tu gosta das cores de almodóvar.
os braços estão roxos.
eu gosto do colorido do teu corpo.

17 de nov de 2009

Crise de atenção

Jocasta, a máquina, furtivamente demonstrou seu desgosto por ser comentada. Enquanto falava com a namorada bê, a qual ela morre de ciúmes, ela se debatia, queria atenção. Simplesmente ignorei-a. No exato momento que escrevia sobre Jocasta, ela começou a se debater mais forte, empurrava a geladeira, esta também a ignorava; seu amaciante tinha acabado e eu não iria dar mais. Depois de usar todas as artimanhas possíveis no seu espaço limitado pelo alcance do fio até a tomada, decidiu partir para o jogo sujo e apelar para táticas nada respeitáveis. Forçou tanto até que o cano que ligava ao tanque se soltou, inundando toda a casa. Ela nadava risonha. Um sorriso de uma calcinha amarela, um par de meias branca e uma meia preta.
Maldita máquina, duas semanas desligada, sem omo e nem amaciante. Não aprende por bem, vai na marra.

Maldita máquina mimada

Eu tentava entender os nativos, lições de Geertz e Sahlins. Jocasta não deixava. Gritava, gritava, andava pela cozinha, batia no tanque e na geladeira, uma verdadeira algazarra. Muito esperto, tomei todo o bule de café antes que ela o fizesse. Vingativa, ela arranhava a geladeira e essa só murmurava de tempo em tempo. A mãe diz que é por causa do termostato. Vai saber, quem sabe ela não esconda uma paixão secreta pela Jocasta e não gosta do seus arranhões. Jocasta seguia derrubando copos, pisoteando o tapete, dando gritos e pulando por toda a cozinha. Dia de mau-humor da Jocasta. Contrariado, dei uma dose a mais de amaciante pra ela que acabou por dormir.

16 de nov de 2009

Jocasta, a máquina de lavar roupas.

Hoje quando acordei a máquina de lavar roupas avançava sobre a cozinha em direção ao fogão para roubar meu café de ontem. E olha que não tava dos melhores e era dormido. Quando eu cheguei ela me deu um olhada tímida de duas bermudas e uma camisa xadrez e fez que iria colocar a tampa do amaciante no lixo.

quereres

Queria ter a voz rouca de cigarro.
Queria saber cantar.
Queria tocar samba.
Queria saber desenhar.
Queria escrever poesia.
Queria usar roupas estranhas.
Queria não ter barba rala.
Queria ter um corte de cabelo estranho.
Queria ter um olho de vidro e usar perna de pau.
Queria saber contar piadas.
Queria não ser asmático.
Queria não ser ansioso.
Queria ter ummetroeoitenta.
Queria ser desencanado sobre sexo.
Queria ler pensamentos e ter uma bola de cristal.
Queria dormir de noite.
Queria ter lido mais.
Queria ter lido menos.
Queria não ser medroso.
Queria ter uma banda.
Queria conseguir me desligar do mundo.
Queria ser blasé.
Queria ser mais velho.
Queria ser mais culto.
Queria ser mais normalzinho, as vezes.
Queria escrever um livro.
Queria ser verdadeiro e não representar.
Queria que esse canto torto cortasse a minha carne.

No fim das contas, gostaria de saber o que quero.

Colar de pérolas e vestido verde com flores vermelhas

O tempo engatinhava
da forma que pedi.

Ele não gostava de palhaço triste. Ela achava engraçado.
Ela gostava de cogumelos. Ele achava engraçado.

Ele elaborava teorias mil sobre a vida. Ela já tinha desistido.
Conseqüências do tempo.

Ela sabia o que queria. Ele queria colo.
Ele é sempre inseguro. Ela fica com medo.

Discutiam pra escolher a música.
Ela queria os clássicos cool, ele os bregas desse lado do oceano.

Ela gosta da parede. Ele gosta de se virar para a parede.
Ela caminha engraçado. Ele se apaixonou.

Ela esconde um sorriso bonito. Ele gosta dos olhos tristes.
Ela respira forte. Ele faz barulhos.

Ela é moderninha. Ele é sertanejo.
Ele gosta de flores. Ela é sua flor.

14 de nov de 2009

Um chamado João

"João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?


Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia nome,
curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?


Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
e precipites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?


E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com... (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?


Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar."

Carlos Drummond de Andrade

13 de nov de 2009

Houve um problema!

Não sei o motivo, mas meu servidor, geralmente tão confiável, atrapalhou-se ao enviar algumas mensagens. Tentarei novamente.

12 de nov de 2009

para uso da ampliação vocabular

os palhaços tristes buscavam um sorriso na boca de todos.
enquanto faziam mil piruetas em vão,
os transeuntes pensavam "que tolos".
os poucos que notavam, apáticos não dirigiam atenção.
com o gênio achincalhado se foram sem notar,
que o menino triste dava mil gargalhadas.

ciranda multívoca

quem dera eu poder usar este para abrigar escritos e não como confessionário.