8 de dez de 2014

Algumas confissões

"Chorei, chorei até ficar com dó de mim."

Houve um tempo que fui pouco e de tão pouco não tinha nada para dar. Não me via ao espelho porque não havia ângulo possível de encontrar formas. Era como se o que comesse ou bebesse passassem diretamente pelo corpo porque não havia nada para alimentar ou saciar. Mas nessa ausência de doação ainda restava um pequeno ponto que era maior do que todo esse quase nada, uma vontade. Havia uma vontade de ser, de dar, de mudar. Sempre fui um egoísta, mas não o fui por ignorar, mas por optar por não ligar.
O tempo veio, como sempre há de vir. Pequenas coisas se aumentaram e tive uma esperança. Achei que poderia ser, dar e mudar, entretanto segui egoísta e fiz tão pouco. Fiz pouco por achar que tudo que faria não era o suficiente e eu que não era nada, só poderia dar nada e não adiantaria.
Uma vez ouvi que tinha um sorriso bonito. Eu não era lá de tanto de sorrir. Por outro lado, adorava rir de bobo. Quando criança me caçoavam dizendo que eu era o melhor público para piadas, pois ria de qualquer coisa. Tava aí algo que eu era bom. Esse sorriso que eu soube bonito e sempre mantive escondido, passou a abrir-se constantemente, como se rindo pudesse ser. Nas fotos já não fazia caretas ou me escondia com medo que minha invisibilidade transparecesse, mas abria o maior sorriso possível querendo que com ele todo o restante vazio fosse invisibilizado.
E do tempo que ria e era alguém podia ser leve e andar por aí como que se não houvesse pressa para nada. Entretanto as outras ausências gritavam e acabaram por sucumbir com o sorriso. Tive medo de me mostrar, desde que me lembro. Escondia-me por detrás das pernas de meu pai caso houvesse qualquer situação que exigisse que eu aparecesse. Mais tarde me perguntaram se eu ainda falava tudo com os olhos e um pavor me consumiu. Achava que eu era bom na arte de me tornar invisível e esconder qualquer sentimento com apatia mesmo que eles gritassem dentro de mim.
Isolei-me toda a vida. Passava uma impressão de critica demasiada e de uma solidão buscada. Sempre tive um medo de transparecer o medo. E esse medo me imobilizou. Se não há ninguém por perto, não há ninguém para decepcionar. Fingia apatia, já que quando não se liga para o que acontece, tanto faz.
Dessa forma, fui aparentando desvalorização de qualquer coisa: amigos, saúde, felicidade. A desculpa era repetida que tudo era fingimento e haveria de passar. E de tanto fingir que não fingia, passei a não ligar. E ao não ligar, a ausência que atormentava tornou-se um buraco ainda maior. Como o poço do poço. No fim, encontrei-me onde sempre aparentei querer estar: sozinho, infeliz e dando a mínima.
O coração teima em bater e sempre tive em mim todos os sentimentos do mundo. Quis aparentar não ligar pra eles, mesmo sendo a pior mentira, até que não liguei. Hoje sinto falta de sentir. Me vejo em um vazio ainda maior. O sorriso bonito não existe mais, os olhos estão apagados e não consigo encontrar aqui dentro nada que inspire que o coração ainda bata.
Diziam que quando se corre risco de morte, a vida passa como um filme. Acho que é mentira, mas acredito em tão pouca coisa. Hoje entendo bem que sem sentir não há filme para passar. Também sei que esconder qualquer faísca do que sinto, acaba por fazer que a pedra não faísque mais. Hoje só quero ser o amor que sempre quis ser e nunca me permiti.

4 de abr de 2014

Branco e blue

Há muito tempo atrás, eu tive uma menina. Naquela época ainda achava que a gente deveria ter as pessoas que amava. No final dos anos de rebelde, como se hoje já tivesse deixado a adolescência pra trás. Sempre fui muito burro e só podia sentir algo por quem não me tinha apreço. De tanta insistência ela passou a me gostar, foi o começo do fim. Foram tempos de deitar na grama, muito vinhos baratos e discos repetidos do Belchior até eu conseguir, pouco a pouco, afastá-la. Perto do fim, roubamos uma planta juntos. Duas crianças não podiam compartilhar uma casa, compartilhavam uma planta. Ela me deixou, eu fiquei com a planta e, coincidentemente, dei-me conta que o amor que guardava tinha se esvaecido no mesmo dia em que a planta já não ficaria mais erguida.
Seguindo no mesmo erro, já alertado por minha mãe, amei essa outra menina. Ela era geniosa e muito delicada. Criou-se uma relação de posse lentamente, embora já não fosse mais necessário e, tampouco, pretendido. Eu já havia sofrido um bocado e sabia o quão difícil era estar do lado de alguém. Foram tempos de poesia e canções ao violão; filmes repetidos e noite sem dormir. Fui embora, deixei meu coração. Ela, tardiamente, apareceu por aqui e meu quarto se encheu de pássaros azuis. Pouco a pouco eles foram caindo da parede com a partida. Ainda restam dois.
Nunca acreditei em destino. Hoje torço todos os dias que acordo para que os dois desabem e eu siga adiante.

12 de jan de 2014

Sobre o tempo

E, além disso, quero que tu me prometas uma coisa desde já. Já? É importante. O que é? O tempo vai passar. Ele sempre passa. Calma. Desculpe. O tempo vai passar e tem tanta vida que vai junto. O amor perde o sentido original e ganha outros. O lençol fica puído, o sexo torna-se hiato. O corpo não é o mesmo e o desejo se transforma em cotidiano. Não te entendo. Não quero que sejamos daqueles que ficam velhos e chamam um ao outro de pai e mãe, depois de vô ou vó. Meus avós chamam um ao outro de negro e negra, acho bonito. Também não quero ser chamado de paixão ou de amor. Mas é tão terno. Mas esse amor que repete todos os dias acabar por se tornar um ô, você. Mas crianças precisam que refira-se ao outro como pai e mãe para que eles chamem também. Prefiro que meus filhos me chamem pelo nome a correr o risco de que tu me trates de forma automática. Quando disser meu nome depois de 50 anos juntos ainda vou saber que me ama. Quando morrer não quero que tu diga meu marido ou ex-marido ou o vô, ou o pai: quero ainda ser o que serei pra ti a partir de agora. E como posso te chamar? Como bem queiras. E qual é teu nome? Promete?