17 de out de 2013

Parte primeira

Seu dia começava nublado pela visão de sua janela e dentro de si mesmo. Não tinha vontade de levantar, mas já não trabalhava há dois dias. Não sabia se era incompleto por não saber como completar-se ou por falta de ânimo. Embarcou no ônibus para o trabalho meia hora depois que deveria estar chegando.

Durante o caminho para o trabalho tentava ler alguma coisa. Repetia as mesmas linhas sem se dar conta, mas tinha vergonha de guardar o livro de volta na sua bolsa logo depois de tê-lo aberto. Sempre tivera essa sensação que era observado por todos ao seu redor. Quando criança imaginava câmeras escondidas por sua casa. Sempre ao tropeçar na rua olhava para os lados tentando notar quantas pessoas haviam reparado. Decidiu que iria embora naquele dia. Não sabia como, mas iria. Sempre tivera boas ideias ao andar de ônibus. O sono havia passado, mas seguia sem vontade de trabalhar. Lembrara de um dia que foi trabalhar sem ter dormido. Recebera uma visita naquela madrugada e a fez prometer que não o deixaria dormir. Viravam-se na cama, olhavam para o teto juntos: rindo sem o menor motivo. Passou um bule de café ao depararam-se com as primeiras luzes adentrando as frestas da janela. Foi a última vez que a viu. Não se despediram.

Tinha vergonha de entrar no trabalho tão atrasado, mas fingiu que não tinha se passado. O chefe fingiu que ele não estava ali e ele baixou a cabeça para tentar colocar seu trabalho em dia. Sua cadeira rotatória parecia dar voltas em seu próprio eixo e, cada vez mais, sentia-se tonto. Todos os dias ele se recriminava pela sua mania de procrastinar, mas não conseguia fazer nada a respeito. Faltavam-lhe forças, mais do que isso, faltava ânimo.

Era uma quinta-feira. Decidiu que viajaria no dia seguinte em direção a Porto Alegre. Foi ao banco após o trabalho e notou que tinha menos dinheiro do que imaginava. Ele sempre tentava mentir pra si mesmo quanto aos seus gastos. Ao se deparar com a realidade do extrato bancário, via seu novelo cada vez mais emaranhado. Foi à rodoviária comprar sua passagem mesmo sem saber se teria dinheiro para voltar para casa. Animou-se instantaneamente como se tivesse aplicado a si mesmo uma dose de adrenalina. Não soube o porquê. Talvez a viagem lhe traria um pouco de esperança.

Acordou cedo no dia da viagem, amassou algumas roupas dentro da sua bolsa, alguns livros e um caderno de anotações. Ao fechar a porta, teve impressão que seu apartamento não seria o mesmo ao voltar para casa.

Chegou cedo para trabalhar. Seu dia pesadamente de forma apressada. Saiu tardiamente da labuta, mas seu ônibus ainda demoraria duas horas para sair. Lembrou que não havia avisado para ninguém que viajaria e nem sabia onde ficar em Porto Alegre. Pensou em ligar para alguns amigos, mas desistiu. Queria ficar só naquele dia. Bebeu uma cerveja enquanto esperava na rodoviária e fumou mais cigarros do que deveria.

Ao entrar no ônibus, carregava um peso que parecia colocar em xeque a vida que levava. Só tinha uma certeza: pelo menos ainda há um movimento possível.

Fechei os olhos logo após ter sentado na poltrona e só voltei a abri-los na entrada da rodoviária que passei todos os finais de semana por muitos anos atrás. Ela carregava a melancolia e o saudosismo do tempo que havia morado naquela cidade.

Já passava da meia-noite, mas não quis tomar um táxi. Desci até o metrô e tomei o último trem até o mercado público. As ruas sujas e o cheiro de peixe me alegravam estranhamente. Vaguei pelo centro até a Lima e Silva.

Sentei em algum bar da Rua da República e pedi uma cerveja. Quando voltei a mim, o garçom tocava meu ombro dizendo que o bar fecharia logo e se eu queria mais uma cerveja. Recusei. Vaguei de bar em bar até amanhecer. Não sei dizer por quais lugares passei e as pessoas que lá estavam. Algumas falaram comigo e como quem coloca um aviso na porta para que não incomodassem, apenas me desculpava e buscava o fundo do copo e logo da garrafa. A noite passou em um piscar de olhos e sol apareceu antes que eu esperava. Carregava um cansaço nas costas, mas não sentia sono.

Voltei para o centro da cidade e caminhei sem direção anteriormente especificada. Passava por lojas carregadas de poeiras e memórias que me despertaram uma curiosidade inexplicável. Sentia adentrar em mim, sem permissão prévia, aqueles significados dos objetos usados que eram vendidos naqueles antiquários. Não saberia dizer quanto tempo contemplei as vitrines que ali estavam. Anos se passaram para mim e eu seguia estático a cada nova vitrine. No centro de um armário de vidro espelhado notei de longe um relógio de bolso. Estava sem tampa, mas parecia que havia um holofote voltado para ele. Não sei o que mais era vendido naquela loja, talvez só existisse o relógio. Tanto faz. Para mim só existia ele.

Um senhor antipático perguntou o que eu desejava. Bati os ombros e parei em frente ao armário. Ele me falou que o relógio custava vinte reais. Tirei todo o dinheiro que tinha nos bolsos e ainda faltavam três reais. Ele disse para eu voltar depois. Abri minha bolsa e tirei uma caneta que havia ganhado há muito tempo. Não conseguia recordar a situação e não me esforçava para tal. Ele aceitou e me cobrou mais dez reais pelo relógio. Coloquei-o no bolso do paletó e me dirigi à porta da loja com certo receio. Como quem vai embarcar em um avião e tem medo de ser parado no detector de metais. Senti que carregava um fardo no bolso, mas um fardo que brilhava e refletia toda a esperança que havia conquistado ao embarcar na jornada.

Vejo um rosto familiar atrás da vidraça. Um rosto que não via há muito tempo e que talvez fosse o que mais desejava encontrar no momento. Tentei correr em direção à porta, mas as pernas pareciam pesar milhares de toneladas. Fui carregado pelo vento e abri a porta em um impulso.

Olá.

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