14 de mar. de 2010

segredo de seus olhos

e a vida girava em linhas tortas, como dizia a canção.
mentia pra mim mesmo que era apenas a cabeça que doía.
disse que andava entediado: mentiras premeditas.
não levantava da cama e sonhava todo o tempo.
andava sempre com fome.
queria ter uma floreira pela casa.
precisava de algo para aguar.
se perdia entre paradas de ônibus e falava o que não devia.
começava filmes e leituras que deixava para trás.
sempre gostara de diversões solitárias,
mas não gostava mais de se sentir só.

1 de mar. de 2010

da volta de silêncios pelo sol e pela lua

desisti do literato,
labuta mais sem cabimento.
com todo esse meu sorriso
não quero a dor como fermento.

versinhos mais desnecessários
aproveito olhares indefinidos
guardo a poesia nos armários
para épocas de frio.

desperdício de metáforas?
as tiro do papel.
não preciso de palavras
tenho visto a lua no céu.

sofrimento demais se chamava amor.
então de que me servia,
se sempre eu o aliava a dor?
ganhei apertos a reviria.

perdi a aposta da graminha.
não fiz meu pedido.
mas já tenho toda a ternurinha
que há tempos tenho desejado.

19 de fev. de 2010

metalinguística

para escrever um poema,
pensava sobre o maldito tema
que o tornaria uma obra ímpar.

sempre tentei falar de amor
que nunca consegui não aliar a dor,
mas, dessa forma, esse era sempre tratado.

outrora falava de mim,
das minhas frustrações em encontrar um fim
acabei me cansando.

banalidades já foram ditas,
por vezes até escritas,
mas sempre me impressionaram.

busquei inspiração no bandeira,
de minha autoria só saiu asneira
e eu seguia no meu impasse.

recorri aos poetas estrangeiros,
não consegui nem alcançar seus cheiros
quem dirá poetizar.

acabei me recostando no travesseiro
o sono me alcançou ligeiro
e a pena ficou de lado.

8 de fev. de 2010

em dias de chuva e sol

e não é que com o final da tarde veio o sol? uma pontinha de sol.
andava em um tempo de não entender metafóras sendo que era o que mais procurava.
andava nervoso, um pouco ansioso. pensava mil vezes antes de escrever algo e mesmo assim não conseguia passar o que sentia.
a chuva veio dessa lado, do outro também.
o calor foi embora, mas o que ele buscava era o calor.
o calor do sol andava demasiado, mas certa noite sentiu o calor da lua.
procurava fios de cabelos pelo lençol branco.
mas de que me adianta o sol bater na minha janela e formar um arco-íris se a lua não me aparece pela noite?
hoje entendi o que o tom chamava de "inútil paisagem."

7 de fev. de 2010

ele se impediu de escrever o que tinha ganas, como dizem os argentinos.

sobre tropicalias e dias ensolarados

era um tempo de mudanças, ele sabia.
viu que não eram frios os quarentaetantos graus santamarienses.
tinha vergonha de suas costas molhadas e de sua estatura.
vezenquando tinha um pouco de orgulho de algumas coisas.
ele olhou para o prédio moderninho enquanto caminhava pela rua.
na primeira noite só deixou a timidez de lado tardiamente.
na posterior ele a esqueceu em casa.
passava bons momentos entre amigos. andava precisando.
ausentou-se na busca de um belo sorriso e olhos de cores que ele não conseguia definir.
tentava manter a postura. muitas vezes não conseguia.
comprou uma garrafa de água. fórmula do auto-controle em meio a noitadas.
fez um dia bonito e ele pode ver o sol se levantando.
disse que gostava de dias ensolarados. ela riu.
ele matutava sobre entregas e possibilidades.

4 de fev. de 2010

fragmentos de sapos viciados em cafés

meu passado me condenava,
entre mistérios e esperanças se escondia.
meu futuro é duvidoso,
não tenho grana, mas tenho dor.
desistiu da terapia.
não gostava das boletas e andava cansado de falar de si mesmo.
aparentava ser um sapo.
sabia que escondia por debaixo do seu manto a si mesmo.
numa esquina qualquer encontrou uma máquina de café.
duplo e sem açúcar.
não gostava de açúcar, precisava de um equilíbrio entre seu grude renegado e o café amargo.
pensou melhor e resolveu fazer um novo pedido
apalpou os bolsos mas sua última moeda havia caido no bueiro.
ele deu de ombros e se foi.

29 de jan. de 2010

através da fronteira

olhava timidamente por cima do muro.
ví que usava uma faixa vermelha no cabelo.
achei bonita.

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conversava na praia sobre rock and roll, filmes e literaturas.
cabelos curtos, vestido branco e uma blusa verde.
o sorriso mais bonito que já ví.
ela dizia que era grande demais.
disse que era melhor do que não ter.
ando cansado da seriedade.

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"es mi vecino" ela me disse.
não entendi. ela repetia.
"tu casa es do lado de mi casa"
lembrei que sempre espiava.
não pude mais sair da frente da casa.
esperava por horas pelo sorriso bonito.
ela usava verde.

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com piadinhas distraía.
nunca fui engraçado. engoli a timidez.
inventava desculpas para mudar de lugar. ela fingia que não notava.
de chimichuris a ensaladas, me ensinava novas receitas.
eu mostrava samba e falava sobre literatura argentina.
cortázar não soava estranho, do borges ela gostava.
ela dizia que ciencias sociales es lindo, eu invejava seu curso de gastronomia.

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usava um vestido branco.
era meu último dia. não queria sair dali.
troca de contatos e todo o blablabla.
caminhamos na praia e subimos nas pedras.
o sol descia. torcíamos para que ficasse escuro.
não muito.
eu te tocava devagar. tu tinha pressa.
não sabia como agir. estranhamento e diferenças culturais.
gostava quando puxava o cabelo.
os olhos puxados não se abriam mais.
"sera que ellos nos escucharan de todo?"
perguntava sobre os que passavam.

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fingia não ligar.
seria por 3 dias. nada mais que isso.
descobri que ainda era mole. era inevitável.
mentia para os outros que não.
para mim mesmo era difícil de enganar.
senti ciúmes. zelo, em espanhol.
depois de bebidas conversas iam e eu estava sentado com meu cigarro.
ela gostava de bailar. eu não sabia.
"voy volver a mi casa. me gusta ter te conocido."
mais um dia se vai.

à beira do mar aberto

eu te dizia que os gregos chamavam de aurora do dedo róseos. não lembro se inventei ou lí em algum lugar. eu sempre arranjava uma desculpa para não estar ali. andava desatento e apático. na fuga para o cigarro tu dizia pra ficarmos mais um pouco e eu inventava uma desculpa para voltar logo. tu sorria tanto e eu fingia que não via. fui te contaminando. no fim das contas tu passou a andar de cabeça baixa ao fundo. olhava para a sombra que não se movia. jogávamos areia para ver o vento espalhar. faltou um canto, um quarto a dois. não me importei. estava deixando tudo para depois. dormiamos com a tv ligada. tu correu para o mar com teu biquini verde e eu não pude não notar, mas tu voltava a meu colo e eu já não me importava mais. tu me dizia tanta coisa e eu fingia escutar. não ignorava as consequências óbvias, mas não me importava. tu me dizia que nada era óbvio. olhamos os livros na estrada. um costume típico para um final (in)esperado. as dunas, a casinha vermelha, milhares de fotos, os abraços deixados para trás, as fones de ouvido divididos me fazem lembrar do que deixei partir. o cenário me causa dor. "tenho pressa, embora não pareça."

28 de jan. de 2010

"Eu quero mais, passei de fase.
Pra mim esse ano acabou e daí?
Se tu acha que vou desistir de viver de mim, foi mal aí.
Não importa se eu ganhe ou empate.
Se tu quer mais água no mate.
Pra onde eu vou, fugir dos complôs é grátis.

Pra ser sincero, quero ver o mais belo empate."



não saberia dizer de que estou atrás. fase de descobertas. ví que ainda resta um pouco de carne onde pensava ser só pedra. me descobri doce e não amargo com me disseram que havia me transformado. aprendi frases em espanhol. não larguei os cigarros. minha tosse diminuiu e minha asma se foi. melhoras de um período anterior baseado na ansiedade. perdi uma camada de pele e junto com ela uma parte do todo branquelo. minhas flores tatuadas floresceram de novo. flores do campo. a areia insiste em ficar presa entre meus dedos. a chuva me molhou e levou todo o lodo que me encobria. achava que sonhava, mas não conseguia dormir. vou fumar mais um cigarro à beira mar.

21 de jan. de 2010

em brusque

não sabia se o fato de olhar mais as vitrines femininas significava que ele ainda pensava nela ou algum traço de homossexualidade reservada. ele sabia o que ela gostava. ela dizia que ele não gostava, mas era pura implicância. ele se deu conta que estava cada vez mais longe. ela não fazia nada pra evitar. armadilhas do destino. bonita sua camiseta listrada de verdes por uma pechincha.

19 de jan. de 2010

de lembranças, não comentara. é algo que não precisa ser falado. do que ficava, ela fazia questão de apagar rapidamente, não sei se era bom ou ruim. não conseguia não remeter algumas leituras, palavras, conversas, as manchas na cama e as que pensava em fazer. engraçado que o amor póstumo não é ódio e muito menos apatia, mas sim marcas. mas nem todas são cicatrizes.