houve uma pequena semente que se chamava girassol. como era tradição em sua família, girassol, quando pequena, era servida a pássaros como refeição. girassol foi oferecida para o costumeiro sacrifício juntamente com um punhado de sementes irmãs, entretanto fora deixada de lado, talvez por sua pequinês, talvez por suas imperfeições enquanto semente. compadecida, uma menina, recolheu girassol da gaiola em que vivia e plantou-a em um pequeno vaso. com cuidados e água, a menina zelou por girassol para que ela se tornasse uma flor, mas girassol, por temer a rejeição, permanecia inerte em seu estado de semente. duas primaveras se passaram e a então moça era implacável nos cuidados apesar da falta de sucesso. em uma dada primavera girassol resolveu desabrochar, apesar de pensar que suas flores logo murchariam e ela não resistiria ao fardo que é ser uma flor. girassol foi tímida em crescer, entretanto a primavera era muito ensolarada e logo girassol encantou-se pelo sol e quis lhe roubar a cor. girassol passou a crescer rapidamente e encantava todos os pedestres que transitavam rentes a sua janela. por sentir-se valorizada, girassol passou a ter pétalas que brilhavam e seguiam os movimentos do sol, seu amante. certo dia, girassol já estava muito maior que o vaso que a abrigava e segura de si decidiu que cresceria a ponto de encontrar o sol. poucos dias se passaram e girassol irradiava um amarelo ímpar quase semelhante ao do sol. exibia também grandes pétalas em quantidade, tamanho e beleza. os pássaros da vizinhança se apaixonaram por girassol e todos os dias tentavam roubar-lhe beijos, mas ela se mantinha fiel ao seu primeiro amante e o seguia ao longo do dia. em certa noite, girassol decidiu, então, que se permitiria um beijo de um pássaro no dia seguinte se ele prometesse que levaria parte dela para dar ao sol e traria a cor de seu amante para si própria. desperta girassol no dia que encontraria seu amante. o brilho de suas pétalas se dava como nunca havia sido visto anteriormente. suas pétalas exalavam perfume e beleza dignos só dela própria. não tardou para que avistasse um pássaro se aproximar de longe para acariciá-la. segura de si, chama o canário para perto, mas sente que seu peito apertar-se e desmorona no chão por ter seu caule rompido. o sol se fecha coberto por nuvens para que girassol não notasse seu pranto. o primeiro transeunte, que outrora diminuía o passo para observar a beleza da flor, não a nota caída e amassa suas pétalas com a sola do sapato. eis que girassol, a flor que temia desabrochar para ser esquecida, fez do sol seu amante e o seu calor a fez brilhar como nunca visto em nenhuma outra flor, entretanto seu caule que não resistiu a todo seu esplendor rompeu e sufocou-se a si mesma por brilhar demais.
25 de abr. de 2011
15 de abr. de 2011
Sobre Pré-Ódios
É com muito orgulho que vos convido ao lançamento de meu primeiro livro, Sobre Pré-Ódios.
Sobre Pré-Ódios é uma reunião de textos escritos entre 2008 e 2010. Alguns publicados em blogs e alguns inéditos.
O livro é composto por poemas e contos escritos, principalmente, de forma confessional que tratam, em sua maior parte, de uma parte do âmago que acabou cedendo-se a sentimentos vãos e voltando-se contra eles ou de banalidades meramente abstratas.
dia 8 de maio às 17:30 na Feira do Livro de Santa Maria.
Adquira seu exemplar e apareça para a sessão de autógrafos.
Para mais informações acesse: http://sobrepreodios.blogspot.com
Sobre Pré-Ódios é uma reunião de textos escritos entre 2008 e 2010. Alguns publicados em blogs e alguns inéditos.
O livro é composto por poemas e contos escritos, principalmente, de forma confessional que tratam, em sua maior parte, de uma parte do âmago que acabou cedendo-se a sentimentos vãos e voltando-se contra eles ou de banalidades meramente abstratas.
dia 8 de maio às 17:30 na Feira do Livro de Santa Maria.
Adquira seu exemplar e apareça para a sessão de autógrafos.
Para mais informações acesse: http://sobrepreodios.blogspot.com
12 de abr. de 2011
Da desvalorização referencial
Havia se cansado. Aventuras vãs, impulsividade, efemeridade e ausência de qualquer certeza. Os rumos de sua vida andavam se tomando sem ele consentir de todo, mas pouco fazia para impedir. Vivia de momentos que nada diziam para ele. Havia esquecido tudo que cultivara a tantos anos, que os livros lhe diziam e que dominou seus pensamentos, talvez, por toda a vida? Pensava que não. Sentia uma dor latente dentro de si mesmo.
Era mal-compreendido. Cultivava uma dor que valorizava acima de tudo. Mentia pra si mesmo dizendo que esta se chamava poesia. Não se enganava de todo. Também era. Juntamente com sua frustração e falta aparente de certezas e de previsões. Andava acomodado em suas incertezas e pouco fazia para mudar: não via motivo claro para que o fizesse.
Imaginava que encontraria em corpos ou em copos algumas soluções que nem sabia ao certo se buscava. Vivia sem direção. Estendia-se em noitadas e deixava sua vida de lado. Faltava ao trabalho e esquecia de suas aulas. Mais que cíclica, sua vida era um redemoinho. Andava em círculos que cada vez apagavam mais seus referenciais primeiros.
24 de mar. de 2011
Poema para ti
Do arcabouço teórico
retirava um conhecimento simplório.
Buscava verdades universais,
currículo e nome em anais.
De um pêndulo oscilante
analisava o movimento nauseante.
Deparava-se com questionamentos infinitos
e do seu interior silenciava os gritos.
Da vida, do trabalho e do dinheiro
matutava até encher o cinzeiro.
Chegava a respostas vazias
que pouco importavam às suas revirias.
Dos gostos, desgostos, mal-gostos
cansava de mirar seus rostos.
Questionamentos vãos inúteis
reprimiam seus desejos fúteis.
Da busca e do cansaço eterno
encontrou motivo para ser terno.
Deixou de lado os seu não
e passou a escutar o bater do coração.
Do seu lado encontrara
respostas as questões que sempre colocara.
Abandonou seu conhecimento vão,
chutou o ego e segurou sua mão.
De não mais tentar teorizar e explicar
pode o seu lugar encontrar.
Os seus medos abandonou
e a ternura, dele, se apossou.
De querer roubar o seu coração
escreveu uma estrofe sem rimas.
Deu de ombros pois desde o primeiro verso
Só tentava anuncia a finalidade do poema:
Dedicá-lo a ti.
retirava um conhecimento simplório.
Buscava verdades universais,
currículo e nome em anais.
De um pêndulo oscilante
analisava o movimento nauseante.
Deparava-se com questionamentos infinitos
e do seu interior silenciava os gritos.
Da vida, do trabalho e do dinheiro
matutava até encher o cinzeiro.
Chegava a respostas vazias
que pouco importavam às suas revirias.
Dos gostos, desgostos, mal-gostos
cansava de mirar seus rostos.
Questionamentos vãos inúteis
reprimiam seus desejos fúteis.
Da busca e do cansaço eterno
encontrou motivo para ser terno.
Deixou de lado os seu não
e passou a escutar o bater do coração.
Do seu lado encontrara
respostas as questões que sempre colocara.
Abandonou seu conhecimento vão,
chutou o ego e segurou sua mão.
De não mais tentar teorizar e explicar
pode o seu lugar encontrar.
Os seus medos abandonou
e a ternura, dele, se apossou.
De querer roubar o seu coração
escreveu uma estrofe sem rimas.
Deu de ombros pois desde o primeiro verso
Só tentava anuncia a finalidade do poema:
Dedicá-lo a ti.
20 de mar. de 2011
Provisões Invernais
O sol ardia na espinha e o tecido colava junto ao corpo. Pouco importava. Permanecia estático. Não por preguiça ou algo semelhante, mas por um conforto que não queria me separar. Tu repousava ao meu lado e parecia que pra ti nada se passava. Imagens e sons eram emitidos pela tevê para ninguém. Tu assistia o espetáculo da preguiça e eu estava absorto com o meu de te ter em meus braços.
Os dias seguiam felizes. Não de uma felicidade plástica ou monótona, mas de um encontro tardio do que outrora se buscava com afinco mas que não se alcançava. As feridas eram lavadas uma a uma e cicatrizavam mais rapidamente do que o esperado. Cicatrizes estas que pareciam de memórias distantes como de infância. Talvez remetessem a esta e agora estaríamos amadurecendo. Um amadurecimento construído a dois como deve ser.
Os sentimentos se tornavam claros e o opaco de outrora, agora permitia que a luz se adentrasse. Os sorrisos se tornam bobos e os planos alegres. O que já era evidente, deixou de ser evitado, para ser consolidado.
9 de mar. de 2011
Lições para suportar o verão que parece outono.
Agora que o carnaval passou, deixe de lado os sapatos altos e desconfortáveis que parecem elegantes e calce algo macio e leve, pois agora será necessário sambar de verdade.
A aparência? Não, não. O carnaval passou, apenas vista sua máscara. As pessoas que te cercam devem estar tão atônitas que poucos notaram.
Para atravessar o verão que parece outono é preciso de uma boa dose de paciência e percepção. Percepção para reconhecer a máscara que vestem e paciência para se decepcionar com a máscara dos outros e com a sua própria.
Antitérmicos são mais do que necessários, pois sempre esquecemos que ainda é verão - por mais que vivíamos reclamando de não suportar o calor do verão - ainda desejamos isto. O cinza se adentra e temos medo de sua chegada, apesar de ela ser reveladora e fazer bem para quem está sozinho.
Para dormir no verão que parece outono, deve se deixar uma pequena fresta aberta pela janela e não usar despertador e ir despertando lentamente com o adentrar da pouca luz pelas frestas da fenestra. Obviamente não se dorm muito no verão que parece outono. Primeiramente porque o corpo não está aguentando as mudanças e a cabeça quer girar sempre que se deita, apesar de sua inércia no restante do dia. Também porque a gripe parece que veio com as serpentinas de carnaval e se prenderam nos braços, pernas e demais partes que seguem doendo. O refluxo de algo que se sentiu na primavera e que o verão consumiu, passam a voltar com tudo e o medo é que siga até agosto e não adiante mais lição para suportar.
Para suportar o verão que parece outono é necessário uma dose de vinte calmantes tomadas em uma banheira com um aquecedor ligado nas proximidades, uma corda no pescoço e uma gilete para se fazer sujeira.
Para esquecer
O maior sacrilégio estava consolidado e era seguido de noites mal dormidas e dores pelo corpo. O desânimo se espalhava pelo âmago e carregava uma certeza de que nada iria melhorar. Refletia sobre seus atos e sentimentos doados e não carregava nenhum peso na consciência, apenas decepção. Matutava sobre o amor que lhe era mediocremente entregado e sentia-se apunhalado por este ser inexistente. Não fizera promessas por temê-las, mas se mostrava disposto a sentir o que antes era impossível. Via-se espelhado na pessoa que outrora nada se parecia a cada dia que passava, entretanto viu seu maior defeito também refletido. Certa vez lhe disseram: "tu não sabe valorizar quem tem por ti apreço". E ela faria o mesmo. Não entendia qual eram os problemas que rondavam ou coisas do tipo. Sentia-se ainda pior pela desculpa esfarrapada no lugar de uma verdade doída que era a sua nova vida e que ele não poderia compartilhar. Não escrevia para esquecer, apesar de dizer isso. Escrevia para sentir mais intensamente. Imaginando que talvez o sentimento tenha isso de se for mais forte ser menos duradouro já que foi desta forma que se sucedeu a eles. Ao se entregar de todo, seu amor deixara de ser válido em troca de incertezas e novidades. Via-se no espelho.
27 de jan. de 2011
Fenestra
como o prisma que ilumina
as sete cores do arco-íris
a luz se adentra
nos teus olhos de atriz
que lânguidos me marcam
tecendo cicatriz
e o âmago dilaceram
de forma descontrolada
e as frestas se abrem
para a luz ensolarada
e as asperezas que me cabem
se consomem com o fulgor
de rimas desnecessárias
que apagam minha dor
as luzes desajeitadas
dançam pelas paredes
como se embebecidas
e costuram redes
que impedem
de defenestrar
meus pensamentos
e de me atirar
pelo penhasco do caos
de minha fenestra.
as sete cores do arco-íris
a luz se adentra
nos teus olhos de atriz
que lânguidos me marcam
tecendo cicatriz
e o âmago dilaceram
de forma descontrolada
e as frestas se abrem
para a luz ensolarada
e as asperezas que me cabem
se consomem com o fulgor
de rimas desnecessárias
que apagam minha dor
as luzes desajeitadas
dançam pelas paredes
como se embebecidas
e costuram redes
que impedem
de defenestrar
meus pensamentos
e de me atirar
pelo penhasco do caos
de minha fenestra.
10 de jan. de 2011
naftalina para as traças
e o verso
que me abandona
na redoma
intrasponível
há de ser,
também,
aquele
que satisfaz
ao desejo
mais ávido
de perfurar
objetos
pulsantes
e cintilantes
até que
o sangue
escorra
por
infinitos furos
e que a deixe
inerte
ante
a pensamentos
inventados
e esfarelados
em meio
a páginas
de coisa nenhuma
furadas
por traças
e, dessa forma,
o coração
se encobre
com
capa dura
e naftalina.
O moderno que nasceu tardiamente
O atraso temporal não impedia que a essência transparecesse.
Era mal-compreendido desde que lembrava. Os olhos eram sempre distantes e tinha um viés diferenciado para qualquer situação banal. Na escola desenhava formas desproporcionais para expressar fatos corriqueiros e era criticado pela professora e zombado pelos colegas de classe. Passando a adolescência em companhia de pessoas mais velhas, participava com fulgor de discussões e debates que aparentavam não chegar a lugar algum com discursos de rupturas e desconstrução da ordem estabelecida. Enquanto seus companheiros de boemia tratavam de questões exteriores, sobre a arte na Europa e as influências nas terras de cá, ele bradava tentando mostrar as possibilidades de construção de algo genuinamente brasileiro. O chamavam de vanguarda de outrora e ele não compreendia a expressão. Notava olhares nostálgicos em sua direção daqueles senhores mais velhos que viviam a contar que recordavam claramente dos agitos culturais de quando ainda eram muito jovens.
Chegando à primeira fase adulta reuniu-se com artistas e pessoas do meio e sempre teve uma queda para literatura. Mantinha diários desde a infância e por isso sempre pensou que as palavras tinham uma necessidade de ser vomitadas no papel. Enquanto seus colegas ritmavam versos e procuravam rimas pomposas, ele desconstruía a tradição poética usando onomatopéias e versos nonsense. Organizava reuniões e movimentos em que versos eram lidos e injustiças denunciadas, mas alcançava pouca abrangência e sempre o diziam que isto não era para agora. Ele chorava por dentro.
Entrou na escola de arte por não saber mais o que fazer. Ia de encontro à política vigente, mas sabia que aquilo não supria sua necessidade de expressão. No primeiro ano de escola, no ano 2003, teve que cursar a cadeira de história da literatura brasileira. Conheceu as diversas escolas da literatura brasileira e as mudanças no curso da formação brasileira desta arte. Quando conheceu a corrente modernista caiu-se em si e entendeu o apelido que os mais velhos haviam o colocado. Não desistiu da arte, mas amaldiçoou a cronologia por tê-lo concebido tão tardiamente.
4 de jan. de 2011
A fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir
O ventilador girava tão lentamente que parecia demorar alguns minutos para a fumaça se perder no pouco vento produzido.Às vezes penso que o calor vai me sufocar, mas também carrego a impressão de um novelo de palavras entaladas na garganta. A respiração palpita cansada ao meu lado e me reviro entre as marcas deixadas no lençol poído. As pernas penam para se mover e colocar o cigarro que ao encontrar restos de cerveja no fundo da garrafa. Diria que o calor me impediria, mas mentiria em meio a outras desculpas igualmente esfarrapadas. Rabiscava em papel seda com a luz que entrava pelas frestas da cortina pequena demais para a janela. O disco parado se riscava e meu âmago palpitava como ecos em uma caverna sem fim.
3 de dez. de 2010
Picnic sentando em banco colorido
O que eu gosto do teu corpo é o sexo
O que gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.
Julio Cortázar
O que gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.
Julio Cortázar
Com a mão espalhava a erva pela cunha. Numa tentativa frustrada de disfarçar a timidez, falava coisas sem sentido e não sabia como se portar. Cuidava-a com o canto do olho por temer fitá-la diretamente. Discutiam literatura e exercitavam seus narcisos interiores. Ela levara um camaféu para o picnic, mas ele chegara de mãos abanando. Temia perder-se entre divagações e palavras trocadas querendo encontrar-se em seus braços. Uma borboleta em meio aos leões e o seu francês bonito. As pilhas de livros mostravam suas leituras e o restante da estante empoeirava-se. Disfarçava o querer-lhe com piadinhas intelectuais. As promessas se enrolavam em grandes bolas e o sol insistia por transformar em água. Ele ansiava por mais um dia chuvoso em que ventasse e a neve resistisse por mais tempo até se consolidar.
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